quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Graffiti Pixel: Materialidade e gesto artístico - Texto Preliminar


Texto Preliminar

Graffiti Pixel: Materialidade e gesto artístico

1.         Introdução

        A presente pesquisa parte da inquietação sobre como a materialidade do Graffiti Pixel Analógico — ao transpor o código digital para o gesto manual — pode revelar modos de aprender que articulam arte e matemática no contexto escolar. Compreende-se a arte, neste estudo, não apenas como campo expressivo, mas como área do conhecimento capaz de produzir formas específicas de pensamento, investigação e compreensão do mundo. Ao mobilizar percepção, sensibilidade, imaginação e raciocínio espacial, as artes visuais operam como território fértil para o diálogo com outros saberes, especialmente aqueles vinculados à lógica, à organização formal e à abstração. Essa característica confere à arte um papel estratégico na construção de práticas interdisciplinares, pois permite que conceitos matemáticos sejam experienciados de maneira concreta, visual e corporal, deslocando-os de uma abordagem exclusivamente abstrata. O projeto propõe investigar, assim, o potencial pedagógico e artístico dessa prática híbrida, que emerge da convergência entre estética digital, cultura urbana e experimentação material, reconhecendo a arte como mediadora de aprendizagens integradas e significativas (Dewey, 2010).

             A experiência prévia do pesquisador com arte urbana, consolidada durante a produção do TCC de especialização em ensino de arte contemporânea e tecnologias na UFMG (2025), sobre práticas híbridas entre arte e campo digital, oferece base sólida para a investigação, legitimando o estudo como continuidade de pesquisas já iniciadas. Nesse sentido, Ostrower (2004, p. 15) destaca que a prática artística integra reflexão, experiência e conhecimento, constituindo-se como instrumento potente de investigação pedagógica.

             O termo Graffiti Pixel Analógico traduz a intenção de aproximar universos aparentemente opostos: a materialidade do muro e a visualidade digital. Ao trabalhar com padrões modulares, formas quadradas e repetições cromáticas inspiradas no pixel, essa prática propõe uma leitura híbrida da imagem, na qual o toque humano e a imperfeição do traço se sobrepõem à precisão da máquina. Tal procedimento evidencia o potencial pedagógico do fazer artístico, não apenas como forma de investigação e experimentação de linguagens, mas também como espaço para explorar conceitos matemáticos como padrão, proporção, simetria, escala e percepção espacial, mostrando que o aprendizado pode emergir da integração entre corpo, gesto artístico e pensamento lógico (Ostrower, 2004; García Canclini, 1998).

             Diante desse cenário, o problema central que orienta a investigação é: de que maneira a materialidade do Graffiti Pixel Analógico — ao traduzir a estética digital para o gesto corporal e para a matéria física — produz conhecimentos que integram saberes da arte e da matemática no contexto escolar?

             A pesquisa visa compreender a potência pedagógica e artística do Graffiti Pixel Analógico, entendido como prática contemporânea que articula investigação estética, reflexão crítica e aprendizado interdisciplinar. Para atingir esse objetivo, busca-se mapear fundamentos teóricos e históricos que conectam graffiti, pixel arte e matemática; desenvolver um corpo de trabalho artístico pessoal documentando a exploração da materialidade por meio de diário de bordo a/r/tográfico; planejar e realizar oficinas pedagógicas que articulem arte e matemática no contexto escolar; e analisar os saberes e experiências emergentes do entrelaçamento entre criação artística, reflexão teórica e ação pedagógica.

            Ao inserir o Graffiti Pixel Analógico no ambiente escolar, promove-se um espaço de aprendizagem crítico e sensível, alinhado ao conceito de cultura híbrida de García Canclini (1998), em que arte e matemática dialogam de forma concreta e experiencial. A escolha pela a/r/tografia como metodologia garante que a prática artística seja simultaneamente objeto de pesquisa, experiência pedagógica e reflexão teórica, permitindo que o registro sistemático do processo produza dados e insights significativos para a pesquisa (Irwin, 2004).

             Assim, a proposta deste projeto surge da necessidade de compreender o graffiti contemporâneo como um campo expandido da arte e da educação, capaz de tensionar fronteiras entre o analógico e o digital, o popular e o tecnológico. O conceito de cultura híbrida contribui para essa reflexão ao reconhecer que as práticas culturais latino-americanas resultam de encontros, negociações e misturas entre tradições e modernidades.

               Nessa perspectiva, o Graffiti Pixel Analógico se apresenta como linguagem capaz de transformar códigos digitais em gestos manuais, produzindo experiências estéticas e pedagógicas que articulam o fazer artístico à reflexão crítica sobre as mediações tecnológicas e culturais na cidade, ao mesmo tempo em que propicia a interdisciplinaridade entre arte e matemática no contexto escolar. Essa compreensão dialoga diretamente com a noção de história de vida enquanto projeto, que ressalta a construção de sentido e a autoria do sujeito na produção de conhecimento e sentido, aspectos essenciais para práticas artísticas e educativas contemporâneas (JOSSO, 2000).

             Além disso, a pesquisa se justifica por sua relevância social e educacional. O graffiti, enquanto prática artística urbana, contribui para a valorização da cultura local, o engajamento dos estudantes e a construção de identidade cultural. Ao inserir o Graffiti Pixel Analógico no ambiente escolar, promove-se um espaço de aprendizagem que dialoga com as ideias de Paulo Freire (1996) e Henry Giroux (1997), que compreendem a educação como prática de liberdade, construção de consciência crítica e apropriação de conhecimentos de forma dialógica.

             Por fim, a escolha pela a/r/tografia como metodologia reafirma o caráter interdisciplinar e reflexivo do projeto. O registro sistemático do processo por meio de diários de bordo, fotografias e vídeos garante que o fazer artístico produza dados e insights significativos para a pesquisa, evidenciando as potencialidades do Graffiti Pixel Analógico como ferramenta de investigação e inovação pedagógica. Dessa forma, o projeto preenche lacunas na literatura sobre arte urbana e educação, propõe novos modos de ensino e aprendizagem e contribui para a construção de saberes que conectam arte, matemática e cultura digital de forma integrada e significativa.

 

2.            Fundamentação Teórica

             2.1: A/r/tografia e a Pesquisa em Arte

 

              A A/r/tografia surge como metodologia que articula três dimensões — arte (art), pesquisa (research) e ensino (teaching) — permitindo que a prática artística se constitua simultaneamente em objeto de investigação, processo pedagógico e reflexão teórica (IRWIN, 2004, p. 18). Ao adotar essa abordagem, o artista-pesquisador-professor não se limita a produzir obras ou registrar práticas, mas se envolve em um processo contínuo de investigação, experimentação e documentação, em que a ação estética gera conhecimento e novas perspectivas sobre o ensino e a aprendizagem.

               A aplicação da A/r/tografia é particularmente pertinente ao estudo do Graffiti Pixel Analógico, pois permite examinar a materialidade do gesto artístico, a manipulação de suportes e a relação com conceitos matemáticos como padrão, simetria e proporção, integrando experiência prática e reflexão crítica. Esse percurso de pesquisa já foi explorado em meu Trabalho de Conclusão de Curso “Graffiti Pixel: Materialidade do Gesto Artístico” (SOUSA, 2022), em que foram desenvolvidas oficinas e atividades de experimentação com stencil e pixel analógico, registradas sistematicamente por meio de diários de bordo, fotografias e vídeos. Tal registro evidenciou como a prática artística em contexto escolar produz saberes que transcendem os conteúdos formais, revelando modos híbridos de aprender e ensinar (IRWIN, 2004, p. 20; ALVES, 2022, p. 15).

              Como enfatiza Irwin (2004, p. 21), a A/r/tografia valoriza a subjetividade do pesquisador, reconhecendo que experiências pessoais e trajetórias de vida constituem elementos fundamentais do processo de investigação. Nesse sentido, a história de vida enquanto projeto ressalta a construção de sentido e a autoria do sujeito na produção de conhecimento, aspecto fundamental para a metodologia a/r/tográfica, que valoriza a experiência pessoal como vetor de investigação e criação artística (JOSSO, 2000). Dessa forma, minha própria trajetória como artista urbano, aliada à prática pedagógica e à pesquisa documental já realizada, permite um olhar aprofundado sobre a relação entre a arte contemporânea e o aprendizado interdisciplinar, legitimando a continuidade e ampliação deste estudo no mestrado

            Ao integrar experiências práticas, reflexão teórica e análise do contexto escolar, a A/r/tografia oferece ferramentas metodológicas para compreender como o Graffiti Pixel Analógico funciona como espaço híbrido de aprendizagem, unindo o analógico e o digital, o gesto corporal e a lógica matemática, em uma prática educativa que ressignifica o espaço da escola e da cidade (IRWIN, 2004, p. 23; ALVES, 2022, p. 18).

2.2  O que é graffiti ?

           A estética relacional, conforme proposta por Nicolas Bourriaud (2009) e discutida por Szaz e Held (2021), desloca o foco da obra de arte do objeto isolado para as relações que ela estabelece no mundo, enfatizando a experiência compartilhada, a participação coletiva e a co-construção de significados. Segundo os autores, “a arte relacional tem como objetivo explorar e redefinir modelos de participação social. Esta estética se transformou em intérprete de um desejo compartilhado de reapropriação da dimensão coletiva, em resposta à progressiva desagregação e dispersão da dimensão social na época contemporânea” (SZAZ; HELD, 2021, p. 281).

          Aplicando essa perspectiva ao graffiti, essa prática urbana pode ser compreendida como uma forma de arte relacional que ocupa, transforma e resignifica o espaço cotidiano. Ao intervir em muros, fachadas e trens, o artista estabelece relações com a cidade e seus habitantes, promovendo encontros estéticos e sociais que ultrapassam o plano puramente visual. Nesse contexto, “o artista se esforça para estabelecer conexões, abrir passagens, colocar em contato níveis de realidade separados uns dos outros, isto é, o artista é aquele que cria objetos e momentos de sociabilidade” (SZAZ; HELD, 2021, p. 281). Assim, o graffiti conecta artistas, comunidade e espaço urbano, configurando eventos sociais e culturais que reconfiguram a percepção e a experiência da cidade (BOURRIAUD, 2009; SZAZ; HELD, 2021).

          Diferentemente da pintura tradicional ou do muralismo institucionalizado, o graffiti não se limita à superfície de um muro: ele se constrói a partir de contextos sociais, culturais e políticos específicos, mobilizando sentidos subjetivos, identitários e comunitários. Ao ocupar o espaço público, dialoga com identidade, pertencimento e narrativa coletiva, consolidando-se como uma manifestação contemporânea capaz de engajar comunidades e estimular reflexão crítica sobre o território urbano (BOURRIAUD, 2009; SZAZ; HELD, 2021; FLEURY, 2014; RODRIGUES, 2022).

          A compreensão do graffiti como fenômeno estético e social exige situá-lo no encontro entre transformações culturais, políticas urbanas e processos históricos que marcaram a segunda metade do século XX. Embora sua consolidação ocorra nos anos 1970, o impulso que sustenta essa prática remonta às tensões que atravessaram a contracultura dos anos 1960, quando diferentes coletivos juvenis passaram a contestar, simultaneamente, a ordem institucional, os modelos tradicionais de sociabilidade e a própria lógica de produção simbólica.

         Nesse momento, o espaço urbano se tornou um campo de experimentação, não apenas como cenário de protesto, mas como superfície ativa para inscrições, gestos, performances e ações efêmeras que buscavam romper a previsibilidade das cidades modernizadas.

         Ao mesmo tempo, as metrópoles atravessavam profundas reconfigurações estruturais: concentração de renda, deslocamentos populacionais, abandono de áreas centrais, crescimento das periferias e uma crescente separação entre os espaços de visibilidade e os espaços de exclusão. Esse adensamento de desigualdades produz um terreno onde a palavra, o nome e a marca gráfica adquirem potência política (SNYDER, 2009).

          Para muitos jovens inseridos em contextos de marginalização, escrever na cidade — ainda que de modo informal ou ilegal — significava reivindicar existência em um ambiente que, de outro modo, não lhes oferecia meios de projeção identitária. É justamente nesse descompasso entre visibilidade e apagamento que o graffiti ganha força como gesto de presença, como interrupção simbólica nas paisagens produzidas pelo planejamento urbano e pelo capital imobiliário (CASTLEMAN, 1982).

             Paralelamente, a emergência da Pop Art — com sua ênfase no consumo, na repetição, nos ícones industriais e nas cores saturadas — alterou profundamente a sensibilidade visual da época. Ainda que situada majoritariamente dentro do circuito institucional da arte, a Pop Art operou uma ruptura decisiva: aproximou a estética da vida cotidiana, tornou legítimos elementos antes considerados banais e deslocou o olhar para aquilo que se acumulava nas ruas, nas vitrines, nos anúncios, nas embalagens e nas superfícies seriais da cidade.

             Essa mudança na cultura visual contribuiu, direta ou indiretamente, para ampliar a possibilidade de leitura estética de manifestações não-institucionais, alimentando uma atmosfera em que o urbano, o popular e o efêmero adquiriram nova centralidade (BOURRIAUD, 2009).

            O graffiti surge, portanto, em uma encruzilhada histórica. De um lado, herda da contracultura a recusa às formas normativas de expressão e a valorização da criatividade coletiva. De outro, absorve — ainda que por vias não acadêmicas — a saturação imagética introduzida pela cultura de massa e intensificada pela Pop Art, incorporando cores vibrantes, gestualidades rápidas e uma lógica visual que combina espontaneidade com impacto.

            E tudo isso se articula às condições concretas das grandes cidades: desigualdade, circulação, anonimato, competição por espaço e desejo de reconhecimento. Assim, mais do que um simples produto marginal ou uma estética decorativa, o graffiti constitui uma resposta complexa às transformações culturais e materiais que atravessaram as metrópoles no final do século XX. Ele sintetiza conflitos, reinterpreta signos, reivindica direito à imagem e instaura, no próprio corpo da cidade, uma disputa contínua pela narrativa do espaço urbano (SNYDER, 2009; RODRIGUES, 2022).

            A Nova Iorque da década de 1970 era um palco de contradições viscerais, um laboratório social onde a opulência do capitalismo tardio colidia com a chaga da crise econômica e a desigualdade social estrutural (ZUKIN, 1989). A cidade, em sua expansão desigual, funcionava como um espelho da lógica de reprodução do capital, onde a segregação espacial era a manifestação física de uma profunda segregação social. De um lado, as áreas nobres, refúgio da elite; do outro, os guetos e zonas degradadas, onde a classe trabalhadora e os marginalizados eram confinados. A estrutura física da metrópole, portanto, não era neutra, mas sim a materialização da estrutura socioeconômica (ZUKIN, 1989).

             No entanto, essa separação física era paradoxalmente unificada pelo fio invisível do consumo. A sociedade de massa, impulsionada pela publicidade e pela televisão, operava como um sistema de homogeneização, mediando as relações sociais através de produtos, marcas e modismos. O cotidiano, antes ancorado na vida comunitária e na luta política dos bairros populares, foi sendo moldado por uma "realidade fabricada" pela mídia. A identidade individual e coletiva migrava do pertencimento e do trabalho para o que se consome, num processo de desmaterialização da vida social (BAUDRILLARD, 1991).

           É neste contexto de saturação midiática e crise de representação que a arte encontra seu campo de batalha. O filósofo francês Jean Baudrillard, em sua crítica ao capitalismo tardio, argumentava que na sociedade de consumo, o objeto perde seu valor de uso e se transforma em signo – um símbolo, uma imagem – que passa a substituir a própria realidade. Como ele expressa em A Sociedade de Consumo: "O consumo é uma atividade de manipulação sistemática de signos. É um sistema de comunicação, um código, uma linguagem, que se articula em torno de objetos-signos."

            A cidade, tomada por outdoors e propagandas, tornava-se o grande veículo desse discurso hegemônico, o signo do poder que ditava as regras do visível e do dizível (BAUDRILLARD, 1991). É nesse silêncio imposto que surge o graffiti como um ato de insurreição estética e política. Nascido nas entranhas da crise, nas periferias invisíveis, o graffiti foi a resposta em tinta à invisibilidade social. Não era apenas uma manifestação artística, mas uma ocupação simbólica do espaço público por aqueles que haviam sido dele excluídos.

             Baudrillard, ao analisar o fenômeno, cunhou a expressão que sintetiza a essência desse movimento: "Kool Killer ou a Insurreição pelos Signos". O graffiti, para ele, era:

"Uma revolta radical, nestas condições, está inicialmente em dizer: 'Eu existo, eu sou tal, eu habito esta ou aquela rua, eu vivo aqui e agora'."

               Essa inscrição nos muros e vagões do metrô, o grande sistema circulatório da cidade, era um grito, uma interjeição, um antidiscurso que rompia a sintaxe da cidade planejada para o consumo. O ato de grafitar, de forma anônima e efêmera, era uma tentativa de resgatar a identidade e a presença em um mundo mediado por imagens vazias.

             O graffiti, portanto, não se limitava a ser uma arte de rua, mas uma forma de resistência estética que subvertia a lógica do signo dominante. Se o poder falava através de seus códigos visuais, o povo respondia com a tinta nos muros, reescrevendo a narrativa da cidade. A ocupação dos trens, em particular, transformava o veículo de transporte de massas no suporte móvel de uma mensagem subversiva, levando a insurreição visual a circular por toda a metrópole, das áreas nobres aos guetos.

              A historiadora de arte Lucy Lippard argumenta que a arte pública, em seu sentido mais engajado, deve ser um diálogo, e não um monólogo imposto. O graffiti, nesse sentido, inaugurou um diálogo forçado, uma perturbação visual que exigia atenção. Além disso, a socióloga Sharon Zukin descreve como a desindustrialização e a crise fiscal de Nova Iorque criaram um vácuo que foi preenchido por novas formas de expressão cultural, sendo o graffiti uma das mais potentes.

              Em última análise, o graffiti na Nova Iorque dos anos 70 foi a prova de que, mesmo sob a pressão da crise e da ditadura do consumo, a capacidade humana de criar e resistir permanece intacta. Foi a insurreição pelos signos contra o signo do poder, um ato de poesia urbana que transformou a invisibilidade em visibilidade, o silêncio em grito, e a exclusão em presença.

              Historicamente, o graffiti surgiu  nas ruas de Nova York, nos anos 1970, quando jovens das periferias utilizavam muros, postes e trens para assinar seus nomes e expressar identidade, em uma prática que dialogava com desigualdades sociais e circulação massificada de imagens urbanas (SNYDER, 2009; CASTLEMAN, 1982). Em Londres e Paris, movimentos de arte urbana reaproveitaram superfícies públicas ou privadas, incorporando referências da mídia e da publicidade (LEWISOHN, 2009; TRAMONTANO, 2016).

             Em São Paulo, o desenvolvimento do graffiti ocorreu de maneira mais tardia quando comparado às metrópoles que impulsionaram sua consolidação internacional. Como observam Anastassakis e Franco (2009), enquanto o graffiti nova-iorquino se estruturava nos anos 1970, influenciando jovens das periferias a ocupar trens e muros como forma de expressão social e identitária, no Brasil essa prática só ganha visibilidade a partir dos anos 1980. Esse descompasso temporal está diretamente relacionado ao contexto sociopolítico brasileiro, marcado pelo controle das manifestações culturais durante a ditadura militar, o que restringia tanto ações no espaço urbano quanto o acesso a referências estrangeiras consideradas subversivas (FAERMAN; LABRA, 2005).

               Com a abertura política e a ampliação das trocas culturais internacionais, jovens paulistanos passaram a acessar revistas, discos e videocassetes que divulgavam o hip-hop e o graffiti norte-americanos. Como analisa Chaffee (2011), esse fluxo cultural foi decisivo para que o repertório visual do graffiti nova-iorquino fosse incorporado e reinterpretado em São Paulo. Nesse contexto temos a figura de Alex Vallauri, frequentemente citado como pioneiro na introdução do graffiti artístico na cidade. Segundo Silveira (2002), Vallauri apropriou-se de procedimentos e iconografias da street art internacional, adaptando-os ao cenário urbano paulistano e inaugurando novas possibilidades de intervenção gráfica no espaço público.

              Paralelamente, a consolidação do hip-hop nas periferias paulistanas contribuiu para que o graffiti se tornasse uma linguagem identitária e política, integrada ao cotidiano juvenil. as redes formadas por DJs, MCs, breakers e writers foram fundamentais para que a prática se espalhasse pelos bairros e adquirisse sentido local. Assim, ao longo da década de 1980, a combinação entre influências internacionais, transformações sociopolíticas e dinâmicas culturais periféricas permitiu que o graffiti se estabelecesse em São Paulo como uma prática estética, política e social singular (FREITAS, 2016).

             Do ponto de vista formal, o graffiti distingue-se de outras formas de pintura pela gestualidade rápida, pela ênfase na caligrafia urbana e pela construção de um vocabulário visual próprio — tags, throw-ups, pieces e wildstyle — que se consolidou especialmente a partir das práticas desenvolvidas em Nova York nas décadas de 1970 e 1980. Em São Paulo, além da incorporação desses elementos, destaca-se a introdução do stencil como procedimento artístico urbano, sobretudo por meio da atuação de Alex Vallauri, que, após contato com produções internacionais, adaptou a técnica ao contexto brasileiro no início dos anos 1980 (SILVEIRA, 2002). Estudos posteriores também reconhecem Vallauri como um dos responsáveis por aproximar práticas de arte contemporânea e intervenções gráficas na rua, introduzindo iconografias pop e códigos visuais que contribuíram para ampliar a linguagem do graffiti paulistano (MANCO et al., 2005; FREITAS, 2016).

          No contexto escolar, aproximar o graffiti significa compreender a escola como um território de produção de sentido, e não apenas de reprodução de conteúdos. Introduzir o graffiti no ensino de Arte permite que estudantes percebam como imagens atuam na construção de narrativas sobre si, sobre o outro e sobre o mundo. Ao mesmo tempo, a prática envolve corporeidade, experimentação, colaboração e leitura crítica do espaço — elementos fundamentais para uma educação artística significativa (GREFF, 2012).

           Portanto, investigar o graffiti na escola insere-se na discussão mais ampla sobre arte contemporânea, cultura urbana e educação. Essa linguagem não se limita à estética ou historicidade; ela se mostra uma ferramenta pedagógica capaz de gerar pertencimento, estimular autoria, fomentar pensamento crítico e conectar a experiência escolar à vida social e às múltiplas expressões da cultura visual urbana.

           O termo grafite tem origem italiana — graffiti, plural de graffito — e significa literalmente “escrita feita com carvão” ou “rabisco”. De acordo com Stahl (2006) e Giovannetti (2011), essa designação deriva da antiga técnica sgraffito, utilizada para decorar fachadas. A palavra passou a ser empregada no século XIX, especialmente após a redescoberta das inscrições murais em Pompeia, na Itália.

             Com o tempo, o conceito se ampliou e, a partir da década de 1980, o grafite moderno passou a designar intervenções visuais realizadas com tinta spray em espaços urbanos — como muros, pontes e trens — consolidando-se como uma prática artística de caráter público Feitosa (2020). Embora o termo possa abarcar diferentes formas de inscrições ao longo da história, no contexto contemporâneo e, especialmente, no Brasil, ele se firmou para identificar uma expressão estética associada às cenas paulistana e nova-iorquina, inserida em um recorte histórico, social e espacial específico.

             Essa consolidação também possui dimensão política, uma vez que outros termos internacionais, como piecing e writing, são utilizados para designar vertentes específicas dessa manifestação. No entanto, no Brasil, o termo grafite tornou-se o mais adotado por artistas, teóricos e instituições, em razão de sua amplitude e reconhecimento social (Giovannetti, 2011; Stahl, 2006).

              Apesar de seu crescente prestígio, o grafite ainda desperta posições divergentes. Para alguns, representa uma forma de poluição visual e vandalismo; para outros, constitui uma estratégia de democratização da arte, que insere o fazer artístico no cotidiano urbano. Conforme Feitosa (2020), o grafite inaugura um novo tipo de produção cultural que rompe os limites institucionais da arte tradicional — substituindo o “cubo branco do museu” pelo “cubo cinza das ruas” — e transforma a cidade em um museu a céu aberto.

              Além do aspecto simbólico e estético, o grafite envolve também dimensões econômicas e políticas, visíveis no reconhecimento internacional de artistas e na valorização de suas obras em leilões de arte. Em síntese, o grafite constitui uma linguagem artística multifacetada, situada entre o gesto subversivo e a legitimação institucional. Seu estudo nas artes visuais permite compreender novas formas de criação, fruição e interação entre arte, cidade e sociedade contemporânea.

               Este deslocamento de olhar — ou seja, pesquisar o graffiti para além de sua associação mais difundida com a cultura Hip Hop — constitui aqui um recorte possível e metodologicamente consciente. Essa escolha decorre tanto da minha relação direta com outra vertente do graffiti (não vinculada a práticas hip-hop) quanto da centralidade que a questão da materialidade assume neste estudo. Considero mais pertinente, portanto, seguir por esse caminho do que adotar exclusivamente a perspectiva hip-hop como chave de interpretação.

             Nesse contexto, ampliar a compreensão sobre o graffiti implica deslocar o olhar para além de sua tradicional associação com a cultura Hip Hop. Embora essa conexão seja histórica, relevante e legítima, o graffiti constitui-se como uma linguagem visual autônoma, atravessada por múltiplas camadas de significado e por trajetórias diversas. Como afirma Gabriela Leal (2023), a arte urbana brasileira não é homogênea, sendo marcada por disputas estéticas, políticas e de classe social. Uma das primeiras tentativas de sistematizar suas manifestações foi proposta por Celso Gitahy (1999), que classificou os estilos em três vertentes principais: o estilo das máscaras (associado a Alex Vallauri), o estilo americano (vinculado ao Hip Hop) e o estilo mão livre (inspirado em Keith Haring).

 

            Essa categorização, focada na técnica, refletia o contexto da época, mas, com o tempo, o graffiti passou a assimilar uma multiplicidade de técnicas e linguagens, expressando liberdade e inovação. Essa pluralidade histórica evidencia que o graffiti, ainda que globalizado, mantém vínculos locais e expressa diversidades regionais marcadas por singularidades culturais e estéticas (CAMPOS, 2023).

            Como ressalta Néstor García Canclini (1990), as produções urbanas contemporâneas são marcadas pela hibridez cultural, pois operam entre o tradicional e o moderno, o erudito e o popular, o artesanal e o tecnológico. O graffiti, nesse sentido, expressa o entre-lugar das culturas híbridas latino-americanas, desafiando hierarquias e modos convencionais de legitimação da arte. Essa perspectiva permite compreender o graffiti como um campo de disputas simbólicas, estéticas e políticas, que reconfigura as fronteiras entre arte e cidade.

             Além disso, essa multiplicidade é resultado de um processo histórico iniciado no final dos anos 1970. Antes da vertente ligada ao Hip Hop, desenvolveu-se no Brasil uma produção protagonizada por artistas com formação universitária e trânsito internacional, interessados em experimentar formas de arte pública e crítica social, majoritariamente de classe média e alta (LEAL, 2023). São Paulo foi palco de ações marcantes de coletivos como o “3nós3” (Hudinilson Jr., Mário Ramiro, Rafael França), que, entre 1979 e 1982, realizaram intervenções poéticas e críticas no espaço urbano, questionando padrões estéticos e conceituais e provocando o público (RAMIRO, 2017).

            Essas práticas ajudaram a abrir caminhos para o grafite brasileiro, dialogando com a chamada Geração 80. Outro coletivo fundamental foi o “Tupi-não-dá” (José Carratu, Jaime Prades e Rui Amaral), pioneiro em interações diretas com o espaço urbano paulista a partir dos anos 1980, que, após anos sem produzir, voltou a intervir em 2019. Nesse contexto, destaca-se ainda a presença do artista norte-americano John Howard, radicado em São Paulo, que, nos anos 1970 e 1980, pintava livremente nos muros, propondo uma arte acessível e pública (DIAS, 2019).

2.2.          Arte, Cultura e Educação

 

            As experiências de aprendizagem que incorporam o graffiti como prática formativa evidenciam a potência educativa da arte urbana quando inserida em contextos pedagógicos, comunitários e culturais. No campo escolar, Regatão (2021) demonstra que unidades curriculares baseadas na arte urbana mobilizam tanto a observação do entorno quanto a experimentação de técnicas visuais, permitindo que estudantes desenvolvam competências estéticas, espaciais e críticas a partir do contato com elementos como graffiti, tags e murais. Nesse sentido, o graffiti deixa de ser marginalizado e se consolida como linguagem válida de leitura e produção do mundo, ampliando horizontes de aprendizagem situados no espaço público.

           No âmbito comunitário e da educação informal, práticas envolvendo graffiti evidenciam seu potencial pedagógico. Nogueira e Mekari (2017) analisam a atuação de artistas urbanos em iniciativas de transformação territorial, mostrando que grafiteiros podem atuar como agentes educativos ao engajar-se em projetos que articulam oficinas, encontros e intervenções coletivas. Ventura (2021) observa que oficinas oferecidas em ONGs e equipamentos culturais funcionaram como espaços de iniciação técnica, socialização artística e desenvolvimento estético para jovens, sobretudo das periferias. Nessas experiências, o aprendizado emerge da convivência, da troca de saberes e da construção coletiva de repertórios visuais e simbólicos, indicando que o graffiti opera como instrumento de aprendizagem, mesmo fora do sistema formal de ensino.

          Historicamente, desde o final dos anos 1980, o graffiti passou a ser mobilizado em contextos comunitários e culturais de São Paulo, assumindo função formativa ainda que não institucionalizada (Gitahy, 1999). Ramos (1994) mostra que a produção paulistana articulava uma linguagem visual própria, impulsionada por artistas como Alex Vallauri, Jaime Prades e Rui Amaral, responsáveis por transformar o graffiti em forma de intervenção urbana e disputa simbólica. Lara (2001) reforça que oficinas e projetos sociais posteriores consolidaram o graffiti como prática estruturada de formação, permitindo que jovens sem formação artística formal encontrassem espaços de expressão, pertencimento e aprendizado estético-político. Entre as experiências mais significativas destacam-se o Projeto Quixote e a ONG Cidade Escola Aprendiz, que ofereceram oficinas e trabalhos práticos — painéis, fachadas, peças gráficas — funcionando simultaneamente como exercício formativo e oportunidade de profissionalização (Ventura, 2021).

          Com a redemocratização do Brasil, o graffiti passou a dialogar com políticas culturais e programas educativos. Oficinas Culturais do Estado de São Paulo (1986), o Centro Cultural São Paulo (1982) e o Centro Cultural Itaim Paulista (1985) buscaram descentralizar a produção cultural e fortalecer a atuação das periferias. Brandão (2006) destaca que as Casas de Cultura seguiram o princípio da Cidadania Cultural, assegurando à população o direito de participar e experimentar práticas artísticas formativas. Pereira (1989/1992) acrescenta que essas oficinas pretendiam romper barreiras entre centro e periferia, democratizando o acesso à produção e aos bens culturais, enquanto Leal (2023) observa que tais espaços favoreceram a convivência entre artistas urbanos e jovens, consolidando repertórios e práticas coletivas que integraram o graffiti à aprendizagem e à ação social.

           Nesse contexto, o graffiti deve ser compreendido como intervenção urbana performativa, na qual a materialidade e o corpo do artista se articulam para inscrever sentidos no espaço público. A prática transcende a mera pintura, configurando-se como um ato complexo que entrelaça corpo, planejamento, técnica e risco. A materialidade, nesse sentido, inclui não apenas tinta ou suporte, mas também ferramentas que atuam como prolongamentos do corpo do artista, cujas escolhas refletem intenções estéticas, tecnológicas e culturais (Spinela, 2025, p. xx). No stencil, por exemplo, o artista recorta o molde sobre papelão ou outro suporte, transferindo a imagem para a parede com spray, pincéis ou projeção, demonstrando precisão e controle corporal, em que cada gesto influencia diretamente o resultado estético.

          No Graffiti Pixel , essa articulação entre corpo, materialidade e cálculo se torna ainda mais evidente. A prática envolve instrumentos e procedimentos de medição e planejamento — esquadros, prumos, níveis, linhas de nylon e gessadas, réguas de alumínio e carimbos de EVA — para garantir coerência visual e precisão na disposição dos pixels. Conceitos matemáticos, como proporção, ampliação, redução, tonalidade e sequências de cores análogas, permitem que a obra represente volume, luz e sombra, articulando gesto corporal e raciocínio matemático (Campos, 2010; 2017). Cada pixel aplicado é resultado de decisões corporais, matemáticas e materiais, evidenciando que o gesto do artista organiza, representa e comunica significado dentro do espaço urbano.

           O acompanhamento etnográfico dos artistas urbanos possibilita compreender a complexidade desse processo, integrando gesto, corpo, materialidade, cálculo e instrumentos de precisão (Magnani, 2002; Eckert & Rocha, 2013). Essa abordagem, conhecida como etnografia das gestualidades, enfatiza a observação de movimentos, ritmos, improvisações e relações com o ambiente, mostrando que o processo criativo é tão significativo quanto a obra final. Nesse sentido, Gell (1998) argumenta que objetos artísticos devem ser entendidos como agentes inseridos em redes de ação, nas quais materiais e corpos interagem para produzir significado.

           A centralidade do gesto também encontra suporte em Leroi-Gourhan (2002), para quem “a mão e o instrumento formam uma cadeia contínua”, reforçando que técnica e expressão simbólica são inseparáveis. Ingold (2011) complementa que os materiais participam ativamente do processo, moldando e sendo moldados pelos gestos. Merleau-Ponty (1994) destaca que o corpo é o meio pelo qual o mundo é experienciado, enfatizando que toda prática criativa urbana é corporificada, sensível e incorporada ao espaço. Por fim, Agamben (2018, p. 23) lembra que “o gesto é qualquer atitude do corpo de uma pessoa”, consolidando a ideia de que o grafite e a pixel art são inseparáveis do corpo que os produz, da materialidade envolvida e das relações espaciais e temporais que os constituem.

            Assim, o graffiti, nas suas múltiplas formas, demonstra ser prática educativa, performativa e interdisciplinar, articulando corpo, gesto, materialidade, cálculo, espaço e tempo. Ao integrar dimensão estética, pedagógica, social e matemática, essas intervenções urbanas constituem um campo fértil para análise acadêmica, revelando que o processo de criação é tão relevante quanto o produto final exposto nas paredes da cidade.

 

 

2.3.          Cultura Visual, Digital e Analógica

               Vivemos uma era marcada pela coexistência entre o digital e o analógico, onde a visualidade é mediada por telas, interfaces e códigos visuais próprios da cultura digital. Para Lúcia Santaella (2003), essa transformação reflete a passagem da cultura das mídias à cibercultura, em que o sujeito se torna simultaneamente produtor e receptor de imagens. O olhar contemporâneo é moldado por dispositivos tecnológicos, mas também busca reconectar-se com o gesto manual e com a experiência tátil, que permanecem como necessidades estéticas e cognitivas fundamentais.

               No campo das artes visuais, essa tensão entre o digital e o analógico manifesta-se em práticas que exploram a pixel art, a estética dos primeiros videogames e as formas híbridas de representação. O Graffiti Pixel Analógico emerge nesse contexto como uma proposta que revisita o universo digital por meio de materiais concretos, como papel, tinta e stencil, transformando o pixel — símbolo da era digital — em elemento de expressão manual e coletiva. Essa prática questiona a artificialidade da imagem digital e propõe um retorno ao corpo, ao gesto e à materialidade como dimensões essenciais do aprendizado sensível (SOUSA, 2022).

               De acordo com Arlindo Machado (1997), a arte tecnológica sempre se constrói em diálogo com a técnica, não como submissão, mas como um campo de invenção poética e crítica. Assim, a apropriação da estética pixelizada em contextos analógicos pode ser compreendida como um gesto de reinterpretação da imagem técnica, reafirmando o poder criativo do artista diante da automatização digital.

              Sob uma perspectiva pedagógica, Fernando Hernández Hernández (2000) propõe a Pedagogia de Projetos como caminho para uma educação baseada na investigação e na autoria, em que o aluno é sujeito ativo do processo criativo. Essa abordagem dialoga diretamente com o Graffiti Pixel Analógico, pois convida o estudante a explorar linguagens visuais contemporâneas — digitais e analógicas — de forma colaborativa e interdisciplinar, transformando o fazer artístico em um campo de pesquisa e reflexão.

               Em consonância com essas discussões, Hernández Hernández (2000) propõe a Pedagogia de Projetos como caminho para uma educação baseada na investigação e na autoria, em que o aluno é sujeito ativo do processo criativo. Essa abordagem dialoga diretamente com o Graffiti Pixel Analógico, pois convida o estudante a explorar linguagens visuais contemporâneas — digitais e analógicas — de forma colaborativa e interdisciplinar, transformando o fazer artístico em um campo de pesquisa e reflexão.

              O estudo das relações entre pedagogia, arte e currículo revela que a prática educativa vai muito além da transmissão de conteúdos formais, envolvendo dimensões culturais, estéticas e políticas.

2.4.       Pedagogia, Arte e Currículo

             A abordagem triangular proposta por Ana Mae Barbosa (2004) constitui-se como uma metodologia complexa que articula três dimensões interdependentes: prática artística, ensino e aprendizagem. Essa perspectiva permite compreender o processo educativo como um espaço de constante construção e negociação entre professor, estudante e obra de arte, evidenciando que a produção artística não é apenas técnica, mas também reflexiva e cognitiva. Cristina Rizzi (2020) amplia essa concepção ao destacar que a abordagem triangular é uma “teoria em permanente construção”, capaz de responder às demandas do contemporâneo ao articular experiências práticas, teóricas e culturais, promovendo um ensino das artes mais sensível às potências criativas de cada sujeito. De forma complementar, Coutinho (2020) reforça que a abordagem triangular funciona como um percurso ziguezagueante, em que teoria e prática se entrelaçam, permitindo a reconstrução de saberes e significados dentro do contexto escolar.

              A integração dessa abordagem com a pedagogia crítica de Henry Giroux (1997) e a perspectiva emancipatória de Paulo Freire (1996) amplia a compreensão do currículo como um espaço de disputa simbólica, cultural e social. Para Giroux, a escola não deve apenas transmitir conhecimentos, mas fomentar a reflexão crítica sobre relações de poder e desigualdades, estimulando o estudante a tornar-se agente de transformação do seu contexto. Nesse sentido, o Graffiti Pixel Analógico surge como uma prática pedagógica que articula aprendizado técnico, sensorial e social, permitindo que estudantes explorem conceitos de matemática, estética e cultura urbana de forma integrada e significativa.

              Por sua vez, a pedagogia freiriana reforça a centralidade do diálogo, da autonomia e da valorização dos saberes periféricos, aspectos que se manifestam diretamente nas oficinas e experiências de stencil e pixel analógico. A prática artística, nesse contexto, não apenas ensina técnicas visuais, mas também atua como espaço de construção de sentidos, pertencimento e resistência estética, desafiando normas institucionais e promovendo experiências interdisciplinares que conectam arte, educação e território.

       

                Integrando essas perspectivas, observa-se que este eixo evidencia como a educação contemporânea pode se apoiar em práticas artísticas híbridas, valorizando a criação, o diálogo e a investigação como elementos centrais do currículo

 

2.5.       As Conexões Materiais entre Arte e Matemática

          

           Ao longo da história das artes visuais, o ponto surge como elemento estruturante da imagem, articulando percepção, técnica e expressão estética. Desde os mosaicos bizantinos, que utilizavam pequenas peças de pedra ou vidro (tesselas) para formar figuras sagradas, até a gravura renascentista, na qual o pontilhado permitia representar sombras e volumes, o ponto se revela como fundamento essencial na construção da imagem (GOMBRICH, 1999; GRIFFITHS, 1996).

          Técnicas como o bordado em ponto cruz, presentes em diversas culturas, reforçam essa lógica de repetição e organização em grade (PALLIS, 1991). O ponto cruz é uma técnica de bordado que utiliza pontos em formato de “X” para formar desenhos e padrões. É uma das formas mais tradicionais de bordado e é feito sobre tecidos de trama aberta. Reconhecido como a menor unidade da linguagem visual, o ponto cria imagens quando repetido em diferentes densidades, funcionando isoladamente ou em agrupamentos que sugerem sombras, volumes e texturas (MARTINELLI, 2024).

           A técnica de mezzotint, inventada no século XVII por Ludwig von Siegen, exemplifica a complexidade do ponto na gravura, utilizando uma série de pequenas marcas que, ao serem raspadas de uma superfície inicialmente preta, produzem gradações tonais delicadas e efeitos ricos em claro-escuro (MARTINELLI, 2024).

           Essa técnica consiste na preparação da chapa metálica para captar tinta em uma superfície rugosa que imprime um preto uniforme. Sobre essa base, o artista raspa áreas específicas para criar tonalidades variadas, obtendo transições suaves e um efeito pictórico inovador. Foi a primeira técnica a produzir meios-tons reais sem depender de linhas tradicionais, sendo amplamente utilizada para retratos e gravuras tonais (BLOG GRAFFITI ARTES, 2018; BERGER,).

            Já no século XIX, o pontilhismo de Georges Seurat retomou essa abordagem com uma perspectiva científica da cor, utilizando a justaposição de pontos cromáticos para criar efeitos ópticos de mistura (BOZAL, 1983). Essa lógica de fusão cromática, perceptível ao olhar do observador, encontra paralelo na construção digital das imagens, nas quais o pixel — menor unidade de uma tela — organiza luz e cor segundo o modelo aditivo RGB (red, green, blue) (DONDIS, 2007; PEDROSA, 2006).

A evolução do ponto para o pixel foi impulsionada pelo avanço tecnológico. Na década de 1970, Robert F. Foster, no MIT, propôs a representação de imagens por meio de uma grade de pequenos pontos — os pixels —, base do desenvolvimento da imagem digital (LIESER, 2010). Desde então, o pixel deixou de ser apenas um recurso técnico, tornando-se uma linguagem visual com impactos significativos no design, nas artes digitais e na cultura visual contemporânea.

              A chamada pixel art, surgida das limitações técnicas dos primeiros computadores, expandiu-se para diferentes campos visuais, inclusive os suportes físicos. O artista francês Invader, por exemplo, transforma pixels em mosaicos cerâmicos aplicados no espaço urbano, materializando a estética digital no concreto da cidade (LIESER, 2010; SILVA, 2015).

Ao longo da história da arte, a incorporação de conceitos matemáticos como escala, proporção, simetria, padrão e grade é recorrente em diversos períodos e movimentos artísticos. Desde a Antiguidade Clássica, tais princípios foram explorados para organizar e harmonizar imagens (NÓBREGA; VIDAL, 2024). No Renascimento, artistas como Leonardo da Vinci e Michelangelo aplicaram a proporção áurea como fundamento de harmonia estética — exemplo emblemático é o Homem Vitruviano —, consolidando a inter-relação entre arte e matemática (FERREIRA, 2024).

               Movimentos modernos e contemporâneos, como o Neoplasticismo, representado por Piet Mondrian, e o Cubismo, incorporaram padrões geométricos, grades e ritmos visuais baseados em princípios matemáticos, expressando a busca por ordem, equilíbrio e estrutura nas composições artísticas. Estudos recentes evidenciam que tais linguagens visuais revelam intencionalidade matemática em sua construção, articulando o rigor geométrico à expressividade sensível (GESSER; FLORES; SCHUCK, 2021).

               Essa relação mostra que o raciocínio matemático pode se manifestar visualmente como princípio estético, evidenciando a interdependência entre estrutura e sensibilidade na criação artística (VICENTE, 2022; CUCHEDZA et al., 2023).Assim, observa-se que o diálogo entre arte e matemática, especialmente nos conceitos de escala, proporção e padrão, sustenta não apenas a construção estética, mas também práticas educativas contemporâneas que valorizam a integração entre experimentação material e raciocínio lógico. Nesse sentido, o Graffiti Pixel Analógico emerge como um espaço híbrido de aprendizagem, no qual o gesto artístico e a exploração de materiais favorecem o desenvolvimento de saberes visuais e matemáticos integrados, reafirmando a pertinência da a/r/tografia como metodologia de investigação artística e pedagógica.

 

Minha historia

O primeiro momento refere-se à minha condição de participante em oficinas e espaços culturais, nos quais tive contato inicial com a linguagem do graffiti. Em 1987, participei de uma oficina na Casa de Cultura do Itaim Paulista, um dos primeiros espaços culturais da cidade, onde fui introduzido à técnica do graffiti com máscara (stencil). O oficineiro responsável era Maurício Villaça, hoje reconhecido como um dos precursores do graffiti em São Paulo, ao lado de Alex Vallauri e outros artistas da cena pioneira. Essa experiência proporcionou meu primeiro contato com a linguagem e a técnica do stencil, despertando interesse pelo processo criativo e pelo potencial expressivo do graffiti.

                Ainda nos anos 1980, em 1989, participei de um workshop de graffiti na Oficina Cultural Luiz Gonzaga, em São Miguel Paulista, consolidando meu envolvimento com a produção artística urbana. Durante esse período, produzi graffitis em diferentes espaços da cidade, especialmente em meu bairro, o Itaim Paulista. Nos anos 1990, mais precisamente em 1993, ingressei no curso técnico de Desenho da ETE Carlos de Campos, ambiente em que a atividade de graffiti estava pulsante. Ali convivi com contemporâneos que, mais tarde, se destacariam na cena do graffiti e na arte contemporânea, consolidando redes de aprendizado, experimentação e intercâmbio artístico. Em 1995, participei de uma oficina ministrada por Eduardo Castro, um artista de destaque na segunda geração de grafiteiros paulistanos, aprofundando técnicas, repertório estético e práticas coletivas de intervenção urbana.

O segundo momento da minha trajetória iniciou-se após a conclusão do curso técnico de Desenho, em 1997, quando passei a atuar como oficineiro. Em 1998, comecei a ministrar oficinas de graffiti em projetos sociais em meu bairro, ampliando meu papel de aprendiz para mediador da aprendizagem. Nos anos seguintes, participei de dezenas de projetos como arte-educador e oficineiro de graffiti, em secretarias de cultura, SESC, ONGs e diferentes iniciativas comunitárias. Essas experiências permitiram não apenas transmitir técnicas e referências visuais, mas também articular processos de socialização, construção de repertório estético e participação cidadã.

 


roteiro para relatorio unesp 2025

  Relatório Anual 2025 - Discentes da Pós IA  Memorial descritivo e comprovantes Neste documento, você deverá descrever detalhadamente ca...